Tão jovem, e decidindo para a vida inteira

 

Logo no início de minha carreira como Aconselhador, eu precisei me deparar com um desafio que, devo confessar, me assombrou por vários dias.

Uma senhora procurou-me através de uma indicação. Um cliente havia ficado satisfeito com meus serviços a ponto de indicar-me para ela. Este foi um dos vários momentos onde senti orgulho de exercer meu ofício e, ter sido recomendado me parecia um forte indício de que eu andava pelo caminho certo.

Pois bem. Esta senhora contou-me sobre o filho recém-saído da adolescência. Ele prestaria vestibular nos próximos dias e, seu teste vocacional apontava para uma profissão da qual ele não tinha certeza se era capaz de seguir. Na família também não havia ninguém que exercesse o mesmo ofício, de modo que restou buscar a terapia como forma de “desanuviar” as ideias.

Conversei longamente com ela, explicando os procedimentos que seriam adotados durante os trabalhos com seu filho. Mas, acima de tudo, deixei claro que, ainda que ele resolvesse escolher determinada profissão, ainda assim poderia não obter êxito nem tampouco sentir-se realizado naquilo. E como mãe, o papel dela seria apoia-lo, independente de sua escolha.

Trabalhar a família é fundamental haja vista que é em seu seio que aparecem as primeiras pressões. Ou seja, muitas vezes, um membro da família possui desejos e aspirações que destoam do senso familiar comum, e por isto os demais membros passam a dissuadi-lo de seguir por uma carreira a qual, por alguma razão desaprovam. Infelizmente muitas pessoas perdem-se pelo caminho por causa disto.

Também é importante lembrar que a pressão familiar não somente ocorre no âmbito da escolha de uma profissão, mas em caráter religioso, de inter-relações e uma série de outros aspectos. É como se o indivíduo, antes de seguir seu caminho, precisasse pedir a permissão dos seus. E acredite, isto influencia drasticamente e por toda a vida, nos resultados de nossas escolhas!

No dia em que marcamos o primeiro encontro, o rapaz chegou, acompanhado de sua mãe. Confiante, despediu-se do filho, não sem antes desejar-lhe “boa sorte”!

— Então, Álvaro. Parece que você está indeciso sobre qual carreira seguir? – Perguntei, com o intuito de quebrar o gelo.

— Sim. Aliás, nem tanto. Não que esteja indeciso, mas eu realmente não sei se, uma vez escolhendo esta carreira, ela me trará satisfação ao longo de minha vida! – Respondeu-me.

— Devo concordar que temos de pensar a longo prazo. Afinal de contas, você irá dedicar-se pelos próximos cinco anos, à graduação. Ou seja, estes são os seus melhores anos, de modo que, desperdiça-los com algo de que não se tem certeza, seria uma tremenda injustiça! – Retorqui-lhe.

Aquele rapaz me havia feito perceber que a humanidade criou um sistema que obriga ao jovem, escolher uma carreira praticamente definitiva, numa idade em que não possui senão muitas dúvidas existenciais! Além disto, é natural que qualquer jovem, antes de entrar na universidade, questiona aos pais, demais familiares ou amigos sobre qual carreira deveriam escolher. Essa troca de ideias nem sempre traz esclarecimento.

— Eu fiz dois testes vocacionais que apontaram para Engenharia. Qualquer área da Engenharia. – Explicou-me. – No entanto, não me parece ser este o caminho que desejo seguir. Em minha família não há engenheiros. Portanto, não posso ir além daquilo que as pessoas me falam. Alguns dizem que dá dinheiro, outros dizem que dá status, mas eu estou bem mais preocupado se essa escolha me tornará uma pessoa realizada e em paz com sua profissão!

Aquele jovem rapaz falava como um sábio! Eu considerava que ele já tinha noventa por cento de seu sucesso nas mãos, pois tinha consciência de que, para ser bem-sucedido, seria necessária uma relação de amor com sua profissão. Desta forma, ele não entraria em conflito nos momentos de crise, ou, caso entrasse, seria capaz de resolver muito rapidamente.

Convidei-o para que fizéssemos um trabalho prático, com o intuito de ajuda-lo a tomar uma decisão.

O desenrolar de nosso trabalho foi normal, sem maiores percalços. Mas, considerando que Álvaro não tinha uma segunda opção, aquilo me deixou tenso. Ele estava em minhas mãos e, durante uma sessão inteira eu exerceria grande influência sobre suas futuras decisões.

Ao fim de uma sequência de trabalhos, marquei para nos reunirmos, juntamente com sua mãe. Então tivemos uma conversa mais séria sobre a Engenharia.

Acontece que Álvaro não sentia que teria sucesso caso escolhesse ser engenheiro. Todos os testes anteriores apontavam para aquela profissão, mas sua alma gritava um retumbante “não”!

Por fim, Álvaro decidiu que cursaria Administração com vistas para uma carreira internacional. Ao concluir o curso, transferiu-se para os Estados Unidos com o intuito de dar continuidade em sua formação e, em seguida, engatando carreira numa das maiores construtoras daqueles país, passando a conviver com dezenas de engenheiros!

A experiência de Álvaro, de ter desistido de cursar Engenharia para cursar Administração; e de ter ido trabalhar numa construtora e, portanto, junto ao convívio de profissionais da Engenharia, deu-lhe a certeza de que ser engenheiro jamais iria realiza-lo como pessoa.

No entanto, há muitas pessoas cursando alguma faculdade por qualquer motivo e sem uma boa razão para o fazerem. Muitos abandonam seus cursos, outros formam-se de maneira mediana ou medíocre; e outros, ainda, seguem no infeliz exercício de uma profissão a qual não possuem paixão!

Sempre que você fizer escolhas, leve em conta as consequências desta escolha. Muitas delas, possuem efeito vitalício! Algumas, tendem a impactar a vida das pessoas a quem amamos. Mas somente algumas poucas escolhas tendem a nos causar orgulho, anos mais tarde, quando fizermos um exame de consciência!

Portanto, alinhe o pensamento para enxergar lá na frente!

 

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