Quando o sacrifício ocorre em casa

 

Eu havia atendido um engenheiro de meia idade que muitas vezes dobrara seu turno de serviço para atender as demandas da empresa para a qual trabalhava.

Este engenheiro, que chamarei de John, era executivo de uma grande empreiteira e, fora o status, ele ralava muito no trabalho! Seu tempo era escasso e, nas horas de folga, procurava compensar junto à família.

Seu trabalho consistia em viajar para supervisionar algumas obras fora do país e, quando retornava, mais ou menos uns vinte dias depois, havia outras tantas obras para serem supervisionadas no Brasil. Seu salário era bom. Aliás, excelente, de modo que lhe possibilitava comprar, até certo ponto, muitas coisas. Mas não lhe possibilitava comprar o tempo que perdia por estar longe de sua família!

Certo dia, ao voltar uma de suas viagens, Helena, a esposa estava ansiosamente lhe esperando. Então lhe disse:

— John. Precisamos conversar!

John se assustou! Noutros tempos, a esposa iria recebe-lo no aeroporto, toda saudosa. Depois encontravam-se com os filhos e, ou faziam um programa de família, ou eles dois partiam para um jantar romântico à dois, bem aos tempos de namoro e noivado.

— O que houve, amor? Aconteceu algo de errado?

— Não, graças a Deus não houve nada comigo ou com os meninos. – disse ela.

— Ufa! Por um momento eu pensei que…

— John, eu quero o divórcio!

John me descreveu aquela experiência como uma das mais chocantes de sua vida! Seu corpo perdeu forças de modo que ele precisou sentar-se rapidamente para não cair. Também precisaria de entender o que estava acontecendo.

— Helena, você não me ama mais? O que está acontecendo contigo?

— Amo! Eu te amo! Não está acontecendo nada comigo. Eu estou normal! Normal e decidida: Não quero mais! Não dá!

John ficou estarrecido. Ele amava a esposa, havia feito tudo o que podia para dar tranquilidade financeira à família, mas sua constante ausência no lar havia criado um abismo entre ele e a esposa.

Não se tratava de um esfriamento afetivo, mas um distanciamento que estava fazendo muito mal a Helena. Mergulhado no trabalho, John foi incapaz de perceber!

Foi neste período que, depois de passar por alguns psicólogos e analistas, ele procurou meus serviços.

Helena, segundo John me contou, sempre foi esposa exemplar e mãe amorosa. Ambos se conheceram muito jovens e tinham aspirações diferentes. Helena aspirava uma carreira no Jornalismo enquanto John já tinha definido seu plano de vida na Engenharia.

Os rumos mudaram quando ambos “ficaram grávidos”, então precisavam tratar do casório com urgência, antes que a gravidez se tornasse algo notório.

Casaram-se. Contudo, ambos não haviam concluído os estudos. Desta forma, embora recebessem auxílio de seus familiares, John assumiu o sustento da casa, dividindo seu tempo entre o trabalho, faculdade e o lar, e Helena assumiu o lar e a maternidade. O sonho dela, de se tornar jornalista, estaria em suspenso por tempo indeterminado.

Este é um sacrifício que milhões de mulheres fazem todos os anos. Digo sacrifício porque, embora considere a maternidade algo incrivelmente maravilhoso, no entanto é algo que exige da mulher gigantescas abnegação e renúncia.

O tempo passou, os filhos cresceram e gradualmente foram assumindo suas vidas, buscando a realização de seus objetivos e sonhos. John havia ascendido na empresa e a família, conquistado um padrão de vida que lhes garantiu bastante conforto, boas oportunidades para viajar, fazer cursos e comprar, dentro de um certo limite, aquilo que desejavam. Enfim, o estereótipo daquela família da propaganda de margarina! Ao menos para John e os filhos, tudo estava bem. Mas o silêncio de Helena velava uma criatura que havia se tornado infeliz e não realizada. E helena não suportava mais viver aquilo! Ela queria livrar-se da prisão que sua vida havia se tornado. Por isso, compreendia que o divórcio era o caminho mais rápido para a liberdade.

— Frequentei vários terapeutas, de diferentes linhas e quase todos foram unânimes em dizer que talvez eu deva renunciar à minha carreira, em nome do amor pela minha família e esposa! – Disse-me John.

— Como assim? – Retruquei.

— Sim. As pessoas acreditam que foi minha carreira que acabou prejudicando tudo e, como já conquistamos uma situação de estabilidade, talvez eu devesse repensar algumas coisas de modo a ter mais tempo para a família e para mim mesmo.

John estava convencido de que sua escolha, apesar de ter trazido grandes benefícios para todos, por outro lado havia desintegrado os sonhos de Helena, mas principalmente colocado o casal em lados opostos.

— Eu até já fiz alguns planejamentos, de modo que estou analisando a possibilidade de abrir um negócio próprio, ou quem sabe…

Neste momento, em vez de escuta-lo, eu fiz um ligeiro movimento no sentido de interromper seu raciocínio. Então fui direto ao ponto:

— Pare! Não é necessário explicar mais!

John arregalou os olhos. Provavelmente, ele já havia contado aquilo para outras pessoas ou profissionais, e possivelmente o deixaram falar por longas horas, respondendo-lhe somente com alguns “ahã” ou simplesmente assentindo com a cabeça. Com isso ele ficou livre para “maquinar” algo que lhe parecesse sensato, muito embora não fosse!

— Sente culpa por ter construído uma carreira sólida? – Perguntei.

— Não! – Respondeu-me enfaticamente. – Mas me sinto culpado por ter conseguido alcançar o topo de minha carreira enquanto Helena amargou terrível frustração em sua vida! – Concluiu.

Estava claro que John carregava aquela culpa. Afinal de contas ele estava disposto cometer uma espécie “suicídio profissional” ao largar sua carreira bem-sucedida para entrar noutro ramo de negócios assumindo, portanto, riscos e uma incerteza de futuro que naquele momento ele não possuía.

— John. Deixe-me dizer algo. O único lugar onde as pessoas se suicidam em nome do amor, e onde tudo termina de maneira poética, é na estória de Romeu e Julieta! Na vida real, fazer o que você está planejando, poderá causar um imenso terremoto não somente em sua família, mas nas próximas gerações!

— Como assim? – Interpelou-me um John apavorado.

— Veja. Primeiro você pensa em largar uma carreira bem-sucedida porque carrega a culpa da não-realização profissional de sua esposa. Depois planeja entrar noutro ramo, portanto, assumindo riscos que atualmente você não tem. Além disto, você terá que sobreviver de suas próprias economias enquanto o novo negócio não der lucro, isto se algum dia vier a dar. Não acha que o risco é muito alto?

— É. Eu já havia pensado nisso…

— Então já deve ter pensado que, caso seus planos não deem certo, isto poderá tragar sua família inteira, incluindo os netos que ainda não nasceram, levando todos, de uma vida estável para uma situação onde se tem de “ralar” para ganhar o pão de cada dia!

— Sim. É isso mesmo!

— John, ninguém deseja, à posteridade, ser lembrado por ter sido a causa da ruína de gente inocente. Se você tem noção de que isto poderá acontecer, por qual razão está disposto a colocar “dinheiro bom” numa coisa incerta?

— Por amor à minha esposa e filhos eu faria…

— John, isto não é amor! Isto é medo de fracassar no amor! Medo de perder o amor! Medo de perder a família! Medo, medo e medo! Note que a família já é sua! São seus filhos. Helena, no mínimo é mãe de seus filhos! Vocês partilharam uma vida juntos, cresceram, prosperaram, dividiram as dificuldades. Helena fez muitos sacrifícios, mas você também os fez!

John foi às lágrimas!

O medo havia tirado de John a ampla visão que ele costumava ter em sua carreira. Mais que isto, ele era sim um bom pai e esposo. Havia dado provas de amor durante todos aqueles anos. Ele havia feito um esforço contínuo. Claro que por amar sua profissão, tudo se tornou mais fácil. Mas ele foi além, soube como canalizar os bons resultados de sua profissão, aplicando-os em sua família. Sabia que seu sucesso era também o sucesso de sua família. Nesse contexto, devo reconhecer, John era um vencedor!

O fato de Helena ter se mantido em silêncio, de alguma forma acabou legitimando as ações de John rumo ao topo de sua carreira cujo sucesso também era atribuído ao esforço dela. Foi justamente este o ponto! Agora John sentia culpa de não ter percebido que Helena havia ficado frustrada!

O aspecto perigoso da situação a qual John se encontrava era simples em sua acepção: Ele estava disposto a fazer tudo para salvar seu casamento! E isto incluía destruir sua própria carreira!

Uma pessoa disposta a tudo torna-se potencialmente perigosa. Especialmente porque a maioria das pessoas confunde “estar disposto a tudo” com “estar disposto a fazer qualquer coisa”. No fim das contas, estes dois modos de pensar estão separados por um fio praticamente intangível!

Existe um ditado muitíssimo popular que diz: “Sorte no jogo, azar no amor.” Isto parece ser ruim, não? Mas há outro ainda pior: “Não se pode ter tudo.” Somente quem adora viver como pássaro na gaiola consegue levar estes ditados a sério!

Afinal de contas, por qual razão não podemos ter tudo aquilo que desejamos? E por que não podemos ser felizes no amor ao mesmo tempo em que somos felizes financeiramente? Claro que isto é possível … para aqueles que ousam ir além de seus próprios limites! E neste sentido, John havia feito a tarefa de casa. Ele havia seguido a fórmula do sucesso de maneira protocolar!

Depois de nossa primeira conversa, ficou claro que a mudança não deveria ocorrer conforme John estava planejando. Na verdade, era algo simples…

John havia encontrado muito cedo sua Missão de Vida. Ele já sabia qual profissão seguir e fez disto a rampa que lhe conduziu ao topo da realização profissional e financeira! Assim como John encontrou, agora seria a vez de Helena encontrar a sua Missão de Vida!

 

 

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