Num voo intercontinental, uma curiosa conversa

 

O ano era 2007. Eu havia encerrado uma temporada de serviços em Angola e, depois de ter tido dias maravilhosos com pessoas interessantes e dotadas de um verdadeiro espírito de empreendedorismo, embarquei de volta para casa.

A aeronave, um Boeing 747 da TAAG, estava repleta de funcionários de empreiteiras cuja missão era reconstruir aquele país, castigado pela guerra. Eram em sua maioria brasileiros, dos mais variados matizes. Porém, durante o todo o voo, todos gozávamos do mesmo status, recebendo um serviço de bordo ao padrão das companhias europeias.

Acomodei-me em minha poltrona e só então passei a olhar mais detalhadamente para todos os passageiros. Ligeiramente ao meu lado, era possível perceber a existência de duas “castas” de profissionais, sendo uma delas mais comportada, e a outra, digamos assim, bem mais descontraída. Os primeiros, estavam conversando algo sério; já os outros, riam compulsivamente de uma piada ou algo do gênero.

Durante o serviço de bordo, vinho e uísque à vontade… Então, aqueles risos passaram a se tornar uma pequena algazarra, repleto de gozações. Havia um quê de felicidade em seus rostos e, na medida em que pediam – e prontamente eram atendidos – mais uma dose de uísque, ou uma pequena garrafa de vinho, a intensidade da coisa ia aumentando… claro, tudo isso ocorria sob a supervisão dos comissários de bordo que, em dado momento, pediram que os rapazes se comportassem.

Transcorridos alguns minutos, eles se levantaram com o propósito de esticar as pernas, então vieram para o corredor, onde eu estava acomodado. Desta forma, eu pude ouvir suas conversas com mais clareza. Minha curiosidade sobre eles só fazia crescer.

— Quando chegar, quero ver se compro a casa onde moramos, eu, esposa e filhos! – Disse um deles.

— E eu quero comprar um carro! – Disse outro.

— E você doutor? — Perguntou um destes rapazes ao homem que estava na fila ligeiramente posterior.

— Vou continuar trabalhando! – Respondeu o homem, arrancando gargalhadas dos rapazes.

Eram todos funcionários da mesma empreiteira. Dava para ver que havia respeito entre eles, mas o clima, naquele momento era de descontração. Foi quando eu entrei na conversa perguntando:

— Vocês estão voltando definitivamente ao Brasil, ou pegaram folga?

— Pegamos uma folguinha de quinze dias. – Respondeu-me um deles.

— É. As obras em Angola vão longe. Levará ao menos uns dez anos para que as coisas comecem a se ajeitar por lá. – Respondeu o outro.

Quebrado o gelo, iniciamos uma conversa descontraída onde volta e meia o grupo onde aquele engenheiro estava sentado, também participava.

Aqueles rapazes haviam me contado que eram operadores de máquinas. Todos, sem exceção, eram de famílias muito pobres e já haviam feito de tudo nesta vida: De engraxates a pedreiros, serralheiros, etc., até que a vida os levou a operarem retroescavadeiras, motoniveladoras e, por último, cabreas e gruas.

É verdade que haviam feito vários cursos, aprendendo, portanto, a operar equipamentos com máxima segurança. Operar máquinas pesadas era motivo de orgulho, fazia com que se sentissem poderosos!

Eram homens de porte bruto, mas de um senso de humor inigualável. Eu logo entenderia a razão disto!

— Por que resolveram ir trabalhar em Angola? – Perguntei.

— Paga-se mais! Muito mais! – Respondeu-me um deles, levando os outros às gargalhadas.

Eu não havia entendido a razão de terem reagido daquela forma, mas emendei o assunto:

— Desculpe-me a pergunta, mas quanto é este mais?

— Nós somos peões! – Disse-me. – Trabalhamos no pesado e este serviço não é qualquer pessoa que aguenta. Além disto, é um trabalho perigoso porque num eventual acidente, o risco de morrerem vários operários é muito alto! Por isso, merecemos ganhar mais que os engenheiros!

Todos novamente caíram na gargalhada! Foi então que finalmente entendi a razão das piadas e brincadeiras para o lado daqueles engenheiros.

Eles sabiam que um engenheiro poderia se tornar vítima de seus próprios cálculos estruturais, mesmo anos depois de tê-los feito. Mas reconheciam em seus próprios ofícios, a existência do risco eminente. Por isso, ao final de cada etapa, comemoravam!

Eles me contaram que um operador de grua, recebia um salário entre dez e doze mil dólares enquanto um engenheiro, entre seis e oito mil dólares. Era uma diferença razoável, e motivo de “vaidade” especialmente porque eles não possuíam formação alguma. No máximo alguns cursos técnicos.

Aquele trabalho lhes dava muitas alegrias. Pois através de seus ofícios, estavam conseguindo melhorar suas vidas e as vidas daqueles a quem amavam! Não pode haver nada mais compensador do que quando nos colocamos à serviço do progresso e da evolução!

Quando você encontra pessoas realizadoras, independente de seu grau de instrução, você poderá ter uma experiência transformadora. Isto acontece porque estas pessoas contêm um tipo de energia diferente, vibrante. São como poderosos dínamos cuja força é capaz de transformar tudo ao redor!

Estou certo de que, daqui alguns anos, muitos destes operários terão histórias interessantíssimas para contar a seus filhos e netos, sobre como ajudaram a transformar um país inteiro! E ainda que não constem em nenhum livro de história, é fato que terão feito história! Pois quando você participa de algo que tem o condão de transformar uma situação para melhor, então você também será transformado para melhor: Você estará fazendo história!

 

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