De empregada doméstica à empresária

 

Sabe aquele empregado doméstico que deixa tudo um brinco? Pois é! Ele não sabe o que é crise, carrega sempre um bom dinheiro em seu bolso, costuma ter várias ofertas de trabalho e quase sempre os patrões “comem em suas mãos”.

O ofício do empregado doméstico é algo cuja sacralidade nós mortais somos incapazes de perceber. Mas onde está o sagrado desta profissão? Senão vejamos, o empregado doméstico cuida de nossas roupas, arruma nossas camas, organiza nossos objetos mais íntimos dando-lhes uma ordem que nós mesmos somos incapazes de dar. Ele permeia nossas vidas e, portanto, é muito mais que um simples funcionário!

Embora muitas pessoas sigam esta profissão por, infelizmente, não terem sido capazes de descobrir talentos em si próprias; ou por não terem tido a oportunidade de exercê-los, é muito fácil distinguir quem tem o dom para ser empregado doméstico daquele que, definitivamente, não deveria estar ali no exercício de tão nobre profissão!

Quando determinado serviço não nos agrada, dizemos que tal funcionário é desleixado, preguiçoso, desatencioso e outras coisas mais. Este, porém, é um julgamento errôneo.

Vamos, então, olhar de outro modo!

O funcionário não escolheu estar ali; mas foram suas necessidades que o obrigaram a exercer aquela função. Afinal de contas, ele precisa garantir seu próprio sustento, e também daqueles que lho dependem. Então, é bem provável que ele não goste daquilo!

Há algumas tarefas cotidianas as quais desejaríamos que jamais existissem em nossas vidas. No entanto, precisamos desempenha-las. Outras, porém, gostamos de fazer. Para as primeiras, precisamos empurrar nossos corpos; precisamos nos obrigar a fazer aquilo! Para as outras, não é necessário esforço algum! Geralmente, e em quase cem por cento dos casos, fazemos de qualquer jeito aquelas tarefas das quais não gostamos. Para as outras, fazemos com grande esmero!

Imagine, então, conviver com uma pessoa que não tem gosto por aquilo que está fazendo? Imagine um empregado doméstico que apenas está desempenhando aquela função porque não teve outra oportunidade de trabalho? Qual o nível de humor desta pessoa? Por esta razão, eu acredito que até mesmo para as tarefas mais ordinárias, é necessário ter um mínimo de predisposição, ou, talento!

Eu estava atendendo uma “diarista” chamada Vania, que procurou meus serviços porque encontrava-se num dilema: Ela havia sido convidada por sua antiga patroa, a trabalhar noutro país, mas desta vez na condição de sócia, não mais funcionária. Sua autoestima era tão baixa, mas tão baixa, que ela era incapaz de encontrar em si, elementos que fundamentassem aquela proposta. Ela conhecia muito bem sua antiga patroa. Respeitavam-se acima de tudo. Haviam desenvolvido um relacionamento saudável, de mútua confiança e, quando a patroa teve de ir embora do Brasil, avisou-lhe que, na primeira oportunidade que tivesse, a chamaria para ir junto. Até que este dia chegou!

Vania era o tipo “pau para toda obra”. Possuía grande energia que lhe vertia pelos poros! Era o tipo de pessoa que deixava qualquer um elétrico, só em ficar perto. E sabia, naturalmente, como canalizar aquele grande poder, em qualquer coisa que fizesse. Era uma aluna da vida. Havia exercido várias funções de base, de repositora a assistente de serviços gerais em supermercados, padarias e vários outros tipos de comércio até encontrar-se como funcionária doméstica.

Sabe qual é a diferença entre um funcionário doméstico com talento nato e um funcionário adaptado? Basta entregar-lhes balde e pano de chão. O talento nato irá deixar o chão tão limpo quanto o prato em que comemos. O funcionário adaptado irá deixar o chão… Bem, você entendeu!

Durante três meses, tempo em que Vania se dedicou a preparar toda a documentação necessária para sua primeira viagem ao exterior, procuramos trabalhar vários aspectos de sua personalidade, especialmente a parte de gerenciamento emocional.

Ambas haviam combinado que Vania ficaria, inicialmente, trinta dias. Então ela própria decidiria seu futuro, que incluía o futuro de seu único filho pré-adolescente.

Durante as dinâmicas que propus, vieram à tona experiências de infância tremendamente desastrosas. Vania passou por aquilo que chamamos de “Inferno Emocional”.

O Inferno Emocional acontece quando a criança precisa suportar a pressão que os pais ou tutores colocam sob seus ombros. Em geral, isto acontece sem que os pais tenham consciência do que estão fazendo. Geralmente, crises conjugais permanentes, causadas por disputa de poder, desconfiança, ciúmes, geram tensão nos filhos. E muitas destas crianças, quando não presenciam agressões físicas, são forçadas a conviver num ambiente onde há constantes agressões verbais. Elas não podem ir embora dali. São crianças! Fazem parte daquela família. Então tornam-se adultos tristes, agressivos, incapazes de gerir suas emoções! Vânia fora vítima de tudo isso!

Pensando em fugir de um lar conturbado, Vania casou-se muito cedo, mas encontrou em seu esposo, a repetição da “sagrada loucura” de sua família de base. Decidida a não reeditar o Inferno Emocional na vida de seu filho, Vania pediu a separação e seguiu sua vida com o propósito de buscar a felicidade onde quer que fosse! E quem procura, acha!

Depois de muito sofrimento, Vania encontrou a Sra. Denia, esposa de um diplomata norte-americano. Foi, junto com seu filho, acolhida como parte da família. Porém, dedicou anos e anos de lealdade, esbanjando competência em seu trabalho doméstico, cumprindo, sem esforço algum, todos os rigores que a Sra. Denia colocava como regra. E para participar daquele sistema, Vania aceitara incondicionalmente. Até porque viver longe das agressões morais que tanto sofrera, seria uma questão primordial, tanto para ela quanto para seu filho.

Acontece que entre o período em que a Sra. Denia foi embora do país, e o momento em que retomou contato, Vania havia voltado para a casa dos pais, refeito laços e seu filho estava relativamente acostumado com os avós e demais familiares. E isto pesou muito!

Quando chegamos a uma certa idade de nossas vidas, precisamos fechar ciclos. Mas acima de tudo, devemos saber como fazer isto. Muito embora haja ciclos ou etapas de vida que se encerram naturalmente, sem esforço algum, em outros casos, somos nós que precisamos fazer o encerramento.

Relacionamentos conflituosos costumam ser retroalimentados por todas as pessoas ali envolvidas. Ou seja, uma pessoa de personalidade dominadora necessita de outra que seja submissa; Aquela pessoa de personalidade masoquista sempre irá buscar outra que possua traços de agressividade e truculência.

Há centenas de exemplos onde podemos notar a existência de uma “polarização” entre as pessoas. São relacionamentos venenosos que, via de regra, aprendemos a construir quando crianças, legitimados em nosso próprio lar, e que mais tarde, quando nos tornamos adultos, somos incapazes de identifica-los como algo que nos faça mal. Por isto, tendemos a replicar o mesmo padrão em todos os segmentos de nossas vidas: Onde quer que haja a necessidade de um relacionamento interpessoal, usaremos como referência aquele padrão aprendido na infância. O resultado disto é que terminamos por dispensar pessoas de caráter saudável, retendo em nossas vidas, apenas aquelas que têm predisposição a nos trazer problemas!

Para dar um passo adiante de modo que pudesse fazer um futuro diferente, Vania precisava encerrar vários ciclos que haviam ficado em aberto. Desde seus pais até o pai de seu filho: Fantasmas dos maus tratos lhe rondavam diuturnamente, tornando-a ansiosa, insegura, colocando sua autoestima ao mais baixo grau. Ansiosa porque vivia vigiando estes fantasmas; Insegura porque possuía a ideia fixa de que todos os relacionamentos lhe trariam problemas, e, consequentemente, julgava-se incapaz de atrair pessoas equilibradas, justas e capazes de lhe fazer o bem.

Cumprimos cada etapa de um trabalho que se revelou complexo, que exigiu critério, mas que traria bons resultados para Vania. Ao final, ela havia decidido mudar de vida, levando consigo o filho que tanto amava!

Passaria não menos que dois anos até que Vania restabelecesse contato comigo. Durante este período ela fixou residência nos Estados Unidos, casou-se, abriu uma empresa de limpeza doméstica, continuou prestando serviços para a Sra. Denia, porém, agora havia outras prioridades em sua vida! As coisas andavam bem, o filho na escola, a barreira do idioma havia sido transposta, mas, principalmente, Vania conseguia vislumbrar um futuro onde ela seria capaz de conviver, lado a lado com a própria felicidade.

Não tenho dúvidas que Vania, quando me procurou, já havia encontrado sua Missão de Vida. Porém, sua carreira passou a ascender no momento em que ela tomou a decisão de encerrar ciclos. O sofrimento e a frustração agora faziam parte do passado!

 

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