De dona de casa a escritora e consultora de moda

 

Depois de quase trinta dias de insistência, John (clique no link caso não lembre da história de John) conseguiu trazer Helena até mim.

De início, ela estava encastelada, atrás de um grande muro de resistência. Apesar disto, não perdia a delicadeza e o fino trato para as pessoas. À primeira vista, eu não conseguiria imaginar como uma mulher de aparente autoestima elevada, com certos requintes e uma vaidade singular, pudessem esconder uma mulher frustrada por não ter seguido adiante com seu sonho de se tornar jornalista.

John nos apresentou e, após os cumprimentos, Helena refugiou-se em si mesma, o que me obrigou a quebrar o gelo.

— Então, senhora Helena. John me contou sobre o seu sonho de ser jornalista. Também me contou que, ao longo dos anos, a senhora foi capaz de manter a família unida e na mais perfeita harmonia…

Helena então olhou para John com um tom meio apavorado. Ela não podia acreditar no que ouvira. Então lhe perguntou:

— Você contou isso?

— Sim Helena. Eu contei. Aliás, contei toda a nossa história, desde o início, até o dia em que cheguei de viagem e você pediu o divórcio.

Helena entrou na defensiva. Era natural. A intimidade dela havia sido invadida. Então eu entendi que precisava justificar algumas coisas.

— Senhora Helena. Gostaria de explicar a razão de minha existência temporária na vida de vocês. Quando John me procurou, seu intuito era buscar algum aconselhamento sobre se deveria ou não abandonar sua carreira de engenheiro. E a minha opinião foi de que ele não deveria fazer isso! Embora ele tenha toda a liberdade para fazer o que quiser de sua própria vida, combinamos que nada seria feito até que eu pudesse conversar com a senhora que, tenho certeza, juntamente com os filhos, é a parte mais importante da vida de John.

Naquele momento, olhei para John, que entendeu meu olhar. Então retirou-se da sala deixando-me à sós com Helena. Só então ela baixou a guarda e pode conversar um pouco mais sobre seu drama.

Descreveu-me em detalhes que amava aquele homem, considerava perfeita a vida que tinha, era feliz com os filhos e com tudo o mais que lhe cercava. Entretanto, sentia um vazio imenso por causa do sonho não realizado, e isto lhe fazia sofrer.

Helena tinha criado uma forte identificação entre o casamento e seu fracasso profissional. De algum modo, havia uma forte pulsão fazendo-a crer que, se desfizesse o casamento, o sofrimento acabaria!

Depois de mais ou menos uma hora e meia ouvindo-a, eu disse:

— Eu poderia te ouvir por dez anos, mas não temos mais tempo a perder! O que posso fazer neste momento, é caminhar junto, por um pequeno trecho apenas, até que você encontre com sua Missão de Vida. Você já sabe qual é: O jornalismo. Basta apenas conectar-se! E nisso eu posso ajudar!

Seus olhos iluminaram! Minha proposta havia tirado um fardo pesado de suas costas!

— Aceito o desafio! – Disse-me. — Mas como iremos fazer?

— Há toda uma série de procedimentos a serem cumpridos, um programa, na verdade. Mas eu te asseguro que isso não levará muito tempo. Será algo quase que imediato. – Respondi.

O programa duraria oito semanas. E trouxe um resultado fantástico!

Num primeiro momento, tratamos de analisar em profundidade uma série de tendências de comportamento, preferências por coisas, músicas, produtos, etc., fazendo uma espécie de check-list das características mais marcantes em Helena. Como ela era uma mulher fina, elegante, vestia-se bem, andava sempre muito bem maquiada, porém sem exageros, cabelos muito bem tratados, pele rejuvenescida e estava sempre por dentro das tendências mundiais do mundo da moda, ficou óbvio que este seria o seu elemento principal.

Quando descobrimos nossos potenciais naturais, ou seja, aquele cabedal de coisas que nasceram conosco, tudo tende a ficar mais fácil se os utilizarmos.

Além disto, Helena, que apreciava muito a leitura, falava e escrevia com grande facilidade, resolveu fazer um curso livre sobre jornalismo. Esta seria uma forma de ter mais segurança e desenvoltura para uma melhor execução de seu projeto.

Uma vez mapeadas estas características, trabalhamos com o intuito de fazer com que Helena tivesse uma melhor consciência sobre seus potenciais. Depois disto, partiríamos para a execução de um plano.

Naquela época, não havia muito espaço para as redes sociais, blogs e coisas do gênero. Tudo estava muito no começo. Então combinamos que Helena criaria um perfil social no Orkut, cujas inscrições à época, só se conseguia fazer através de um convite de quem já estivesse na rede. Foi necessário algum tempo até que Helena se familiarizasse com aquela rede social, mas assim que isto aconteceu, ela criou uma comunidade para falar sobre moda, cosméticos, perfume, penteados, salões de beleza, tratamentos estéticos, além de vários outros assuntos correlatos.

Cada vez que nos encontrávamos, o nível de empolgação dela estava mais alto! John a acompanhava algumas vezes, e ficava tão impressionado quanto eu.

As pessoas começaram a gostar muito das matérias que Helena publicava de modo que sua comunidade virtual ganhava mais e mais adeptos.

É verdade, aquilo consistia num exercício apenas. Além do mais, boa parte das matérias eram criadas a partir dos produtos que Helena consumia. Ela fazia o papel de uma “experimentadora” de produtos, então publicava suas opiniões.

Em nosso último encontro, que tinha o propósito de dar o start naquele processo todo, conversamos que, se necessário, voltaríamos a nos encontrar para definir outras metas. No entanto, combinamos de conversar periodicamente por telefone ou e-mail sobre novos acontecimentos.

Tempos depois eu passei a trabalhar noutras cidades, tendo tido contado com pessoas igualmente brilhantes. Num destes trabalhos, eu encontrei a editora-chefe de uma grande revista de moda. E imediatamente lembrei de Helena! Contudo, só pude contata-la meses depois quando então marcamos um novo encontro.

Helena trouxe muitas novidades acerca do trabalho dela. Em resumo, ela havia criado um blog sobre moda com uma legião de seguidores, havia se tornado consultora independente, fechara um contrato com uma empresa de cosméticos e agora, depois de tantos anos, estava ganhando dinheiro com a profissão que tanto desejara seguir! Ela não cabia em si de tanta felicidade!

— E o casamento? – Perguntei.

— Maravilhoso! Como sempre foi!

Tudo havia sido resolvido. Bastava mexer uma única peça para, num passe de mágica, a frustração de uma vida inteira dar espaço a um gigantesco potencial! E neste particular, ouso dizer que pelo tamanho do poder de transformação adquirido por Helena, sua frustração devia ser imensa! Agora tudo isso é passado!

— Tenho algo a te dizer! Estive, meses atrás, com a editora-chefe de uma revista de moda e acabamos tendo um papo muito agradável. Falamos, inclusive, sobre como funciona o processo de pesquisa para as matérias daquela revista. Então pedi-lhe um cartão e disse que havia alguém cujo trabalho poderia ser interessante para sua revista. Pronto! Aqui está o cartão!

Helena ficou feliz com a surpresa. Agradeceu e nos despedimos. Eu ainda pude dizer para ela que não deixasse aquela oportunidade escapar. Pois poderia dar certo.

E deu!

Helena mandou algumas de suas matérias para a revista e fechou contrato de um ano como colunista convidada!

Finalmente havia encontrado sua Missão de Vida!

 

Deixe uma resposta